segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Viagem ao interior poético da música coral:
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Serão todos muito bem vindos

Grupo Vocal Discantus



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graça

O MENINO JESUS NUMA ESTÓRIA AOS QUADRADINHOS
Rimance para coro infanto-juvenil e piano
a partir do poema Hino de Amor de João de Deus (1830-1896)
ALFREDO TEIXEIRA
Obra vencedora do III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graça

O poema de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do quotidiano do Deus Menino. À frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos, respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada. João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade. O compositor leu este documento poético como se de uma banda desenhada se tratasse (a «estória aos quadradinhos»), a que associou a memória fílmica das animações clássicas de Walt Disney. Permanece na criação musical algo dessa sucessão segmentada, por vezes alucinante, onde o ritmo mais histriónico e a expressão mais contemplativa se justapõem, se sobrepõem e se penetram. «Rimance» apela, aqui, à forma histórica dos tradicionais pequenos contos épicos, de forma poética, mas também à assonância que ficcionalmente aproxima o vocábulo da semântica do riso – não se trata, no entanto, de um humor trocista, mas de um humor encantado. Criando a oportunidade de uma homenagem pessoal, a obra encontra-se enquadrada, no seu introito e epílogo, por uma referência modificada à II Cantata de Natal de Fernando Lopes Graça. As suas cantatas de Natal constituem uma das leituras musicais mais penetrantes desse maravilhoso cristão, vertido na mística de um Natal ao sul - português, ibérico e mediterrânico.
Alfredo Teixeira


Hino de amor


Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador.




João de Deus - Campo de flores. 4ª ed. da compilação de Theophilo Braga. Paris - Lisboa: Liv. Ailland e Bertrand, 1914 [exemplar consultável na Biblioteca Nacional de Portugal].

sábado, 30 de março de 2013

Urmas Sisask… no silêncio de Sábado Santo


Urmas Sisask é um compositor estoniano, nascido em 1960. Diplomou-se no conservatório de Tallinn, em 1985, sob a orientação do compositor René Eespere. Na sua música, encontramos tanto de personalizável como de partilhável com os diversos patrimónios da música báltica. No centro dessa herança estão as figuras estonianas de Tormis e Pärt. Mas abundam os rastos da mais perene memória europeia: o canto monódico da liturgia romana, as arquiteturas das primitivas polifonias, as danças da renascença e do protobarroco, os madrigais italianos, o reformismo musical de Palestrina, entre outros. Nesta perspetiva, podemos dizer que a música de Sisask é tradicional, já que os processos composicionais que usa apelam permanentemente à releitura de uma herança recebida. O contraponto e a modalidade descrevem o habitat da sua inventividade. O ato de criação musical não apela à urgência do novo, à pretensão da criação autoral absolutamente singular. O seu ato poético-musical está mais perto da experiência em que o próprio criador se sente gerado. Os arcaísmos que encontramos no seu idioma são vestígios desta atitude estética.

Este compositor estoniano é, também, um astrónomo amador. Esse interesse, a partir das observações astronómicas, levou-o à construção de especulações acerca do som e das órbitas dos planetas. Qual Keppler, em pleno século XX, construiu um sistema interpretativo que correlaciona as trajetórias dos planetas Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno e Plutão com aquilo que chamou de «escala planetária». Essa escala permitiu-lhe a construção de um modo organizado com cinco alturas: Dó sustenido, Ré, Fá sustenido, Sol sustenido e Lá. Posteriormente, descobriu que essa estrutura coincidia com um dos modos básicos da música japonesa, o kumayoshi. Sisask vive em Jäneda. Realiza conferências e concertos no Musical Planetarium, que ele próprio instalou na torre de um antigo solar.

A coleção de obras para coro, sobre textos litúrgicos, intitulada Gloria Patri… 24 hymns for mixed choir, completada em 1988, é um dos exemplos acabados do uso desta estrutura modal. Trata-se de uma coleção – não é, propriamente, um ciclo – onde se visitam alguns dos mais conhecidos textos litúrgicos latinos: Alleluia é uma fuga, Deo gratias é uma «passacaglia», Agnus Dei é um cânone à oitava, Benedicamus aproxima-se da policoralidade veneziana, Confitemini é uma dança da renascença, Pater noster apela à memória do canto gregoriano, e o Ave Maria desenha-se num júbilo melismático.

Escrevo este texto no silêncio de Sábado Santo, segundo o calendário litúrgico romano. Proponho, assim, um tríptico, dentro deste conjunto coligido por Sisask, que começa com a evocação da memória eucarística, O salutaris hostia, passa pela evocação do silêncio orante convocado por Oremus (obra sem palavras), e prolonga-se num canto de vigília, Surrexit Christus, expressão solene da fé cristã na vitória da vida sobre a morte.

Alfredo Teixeira


O salutaris hostia



Oremus


Surrexit Christus